Mesmo com as dificuldades de financiamento, essas instituições implantam projetos especializados. Alguns, vão além do atendimento médico e trazem diversos benefícios aos pacientes
Por Camila Madeira (Assessoria de Comunicação Federassantas) com colaboração das assessoras de comunicação Mariana Castello Branco (Santa Casa BH), Fernanda Freire (Santa Casa de Misericórdia de Passos) e Ceci Gibram (Associação Evangélica Beneficente de Minas Gerais)
O Sistema Único de Saúde (SUS) é um dos maiores e mais complexos sistemas de saúde pública do mundo, de acordo com a definição do Ministério da Saúde. Durante o combate à pandemia, os hospitais públicos deram a maior prova disso, porque foram considerados como referência para o acolhimento e tratamento dos doentes. Mas essa história tem suas raízes ainda na década dos anos 80. Criado em 19 de setembro de 1988, essas instituições englobam serviços desde a atenção primária até os de alta complexidade e a importância delas ultrapassa os atendimentos de urgência e emergência.
O SUS é a principal fonte de recursos de hospitais filantrópicos, que representam 70% de todo o serviço hospitalar em Minas Gerais, de acordo com a advogada especialista em direito e presidente da Federassantas, Katia Rocha. “Essas instituições comprovam o quanto é importante não apenas fazer saúde, mas atender o cidadão de uma maneira acolhedora, cumprindo com a política do Ministério da Saúde de humanização. Começa desde a chegada do paciente ao hospital, perpassando por todo período de internação e também no momento da alta hospitalar. Humanização é algo imprescindível de se trabalhar, não apenas dos profissionais de saúde com os pacientes, mas da alta governança das nossas instituições”, analisa.
Ainda de acordo com a presidente da Federassantas, os hospitais filantrópicos, muitas vezes, absorvem a demanda que o estado e hospitais particulares não são capazes diante do tamanho da demanda da população que depende da rede pública de assistência não apenas em Minas Gerais, mas no Brasil, como um todo. O atendimento poderia parar por ai: cirurgias, tratamentos contra o câncer, assistência às gestantes e as crianças, mas os serviços oferecidos pelos SUS e em especial pelos filantrópicos vão além e nem sempre a população sabe que pode ter acesso gratuito a esses atendimentos diferenciados.
Além disso, alguns deles criam e implantam serviços e projetos de diferentes especialidades para estender a assistência à população, além dos cuidados com a saúde. Iniciativas que atingem positivamente o tratamento e a vida dos pacientes, que nem sempre são de conhecimento da população.
ALFABETIZAÇÃO NA DIÁLISE
O projeto Educa Nefro do Hospital Evangélico, em Venda Nova, na região Norte de Belo Horizonte, oferece aos pacientes aulas de alfabetização, durante as sessões de diálise. Esse tratamento é fundamental, segundo os médicos, aos pacientes que sofrem de insuficiência renal, que é quando os rins perdem a capacidade de realizar suas funções básicas. O tratamento é feito por meio de medicamentos, dieta (para ajudar a conservar a função dos rins) e diálise – que ajuda a substituir algumas das funções dos rins por meio de equipamento, ou seja, retirar as toxinas e o excesso de água e sais minerais do organismo*.
A ideia do projeto Educa Nefro nasceu de um levantamento realizado pela instituição, em junho de 2018, a fim de identificar o nível de escolaridade dos pacientes da clínica e o interesse em retomar os estudos. De acordo com a pesquisa foi constatado, na ocasião, que dos 700 pacientes em hemodiálise, 87 eram analfabetos, 402 possuíam ensino fundamental incompleto e 95 tinham ensino médio incompleto. Diante disso, o hospital elaborou e formalizou uma parceria com a Secretaria Municipal de Educação, para implementar o projeto pioneiro que favorece o acesso à educação via o programa Educação de Jovens e Adultos, dentro do Centro de Nefrologia.
Segundo informações do hospital, a motivação veio da observação das dificuldades dos pacientes no que diz respeito à compreensão verbal e escrita de orientações relacionadas ao tratamento, como, por exemplo, o uso de medicamentos, orientação nutricional, psicológica, orientações acerca do acesso a serviços da rede.
Na primeira cerimônia de formatura, no final de 2019, o ano letivo foi encerrado com nove turmas, totalizando 172 pacientes/alunos. Destes, três receberam o diploma de conclusão do ensino fundamental. A aposentada Shirley Patrícia Dias, 47, é uma das pacientes que passaram a ter aulas do ensino fundamental durante as quatro horas de diálise que faz, três vezes por semana no Centro de Nefrologia do Hospital Evangélico. “É muito bom! E se Deus quiser, ainda vou concluir os estudos para cursar Direito e ajudar outras pessoas”, almeja.
Esse ano, diante do contexto da pandemia da Covid-19, as aulas foram interrompidas como medida de prevenção frente à propagação do vírus. A Escola Padre Marzano Matias, que viabiliza o ensino, aguarda a possibilidade de retomar os trabalhos dentro das orientações da Secretaria Municipal de Educação, ainda de acordo com o hospital. Já a rotina de tratamento dos pacientes segue o curso normal, sendo este indispensável para a condição de saúde e bem estar do paciente. O Centro de Nefrologia tem adotado medidas excepcionais de cuidado frente à pandemia.
Para a equipe hospitalar, o projeto tem muitos benefícios: maior compreensão do processo de recuperação, aumento da taxa de frequência e melhor adaptação nutricional. Além de os pacientes se mostraram mais motivados, comprometidos com o auto cuidado e com as orientações dos profissionais, o que reflete de forma positiva na assiduidade e qualidade do tratamento. O hospital informou que, atualmente, o programa de Alfabetização de pacientes tem planos de se expandir para as unidades de Betim e Contagem.
OPORTUNIDADE DE ATENDIMENTO ODONTOLÓGICO
Incorporada às equipes multiprofissionais, a odontologia hospitalar faz parte do protocolo de atendimento assistencial da Santa Casa de BH, na região Central da capital, e tem feito total diferença na qualidade de vida dos pacientes em tratamento. A presença de dentistas nas equipes ajuda na recuperação acelerada dos doentes e possibilita um tratamento, que na rede pública, em especial nos postos de saúde, muitas vezes há dificuldade ou demora para se conseguir diante de tanta demanda, como evidencia a responsável técnica pelo Serviço de Odontologia Hospitalar, Juliana Couto.
“Temos procedimentos já embasados na literatura que fazem com que efeitos colaterais de tratamentos de transplantes de medula e oncológicos, em pacientes que recebem quimioterapia, e recebem aqui a laserterapia – que ainda não é ofertada em postos de saúde – sejam evitados e possibilita que a recuperação do paciente seja mais rápida”, conclui.
O serviço oferecido pela Santa Casa de BH aos pacientes internados é gratuito e tem o objetivo de remover focos de infecções bucais que, se não tratados, podem alterar de forma negativa o quadro de saúde do paciente e até prolongar o tempo de internação. Atua em atendimentos de urgência e na orientação da equipe de enfermagem quanto à higienização bucal do paciente hospitalizado. Atualmente, em média, são realizados 500 atendimentos por mês, feitos por duas dentistas e duas especializandas.
Em função do protocolo hospitalar, o paciente não faz cirurgia cardíaca e transplante sem a avaliação odontológica prévia, pois a adequação bucal é imprescindível para evitar infecções. Foi o caso de Henrique Gabriel, paciente oncológico que realizou transplante de medula na unidade de saúde. Para a mãe, Talita da Silva, o atendimento foi fundamental no tratamento. “Por conta da quimioterapia, ele teve mucosite e a laserterapia conseguiu aliviar a dor dele. Antes de realizar o transplante, Henrique precisou também extrair alguns dentinhos e por conta do cuidado e carinho da equipe ele se recuperou bem. Somos muitos gratos por tudo”,
A equipe da Santa Casa comemora os resultados da iniciativa. Com a ajuda dos odontologistas do hospital, por exemplo, que auxiliaram pacientes internados com dificuldade de fazerem sozinhos a limpeza bucal, houve redução de casos pneumonia.

INVESTINDO EM TECNOLOGIA DE PONTA
No Hospital Regional do Câncer de Passos (HRC), no Sul de Minas Gerais, unidade da Santa Casa de Misericórdia de Passos, o atendimento aos pacientes com câncer oferecido pelo SUS corresponde a quase 100% ( 91,7%) dos atendimentos na unidade. Desde a sua fundação, em janeiro de 2010 ao último levantamento, em abril de 2020, o HRC de Passos atingiu a marca de 1 milhão de atendimentos e 144 municípios atendidos.
Segundo a equipe médica, são 11 anos de acolhimento aos pacientes oncológicos de Passos e de cidades do entorno. Por dia, ainda de acordo com o hospital, são realizados em média 350 atendimentos, com a oferta de serviços como radioterapia, hematologia, oncopediatria, cirurgia oncológica e medicina nuclear.
Atualmente, o hospital investiu na inauguração da Sala Cirúrgica Integrada que possibilita a realização de cirurgias mais complexas com tecnologia de ponta. Para o coordenador médico do HRC, Dr. Paulo César Felipe Franco, o espaço representa um marco na história do hospital. “Com essa nova Sala vamos conseguir atender a um número maior de pacientes oncológicos, realizar cirurgias mais complexas, melhorando assim a qualidade cirúrgica”, pondera.
O hospital também informou que a área de diagnóstico da unidade de atendimento oncológico também está altamente qualificada para realizar o reconhecimento de sinais e sintomas, e na área de serviço de imagem a instituição conta com equipamentos além do convencional, como aparelho de Tomografia, Ultrassonografia e Ressonância Magnética.
No setor de Endoscopia, o HRC realiza procedimentos especializados como colocação de próteses biliares e mucosectomias. Na área de Patologias, realiza exames de congelação e imuno histoquímica e na Mastologia, são executados os programas Buscando Vidas e Expresso da Vida, que atuam desde o diagnóstico, tratamento oncológico até cirurgias de reconstrução da mama.

SISTEMA IGUALITÁRIO E ATENTO ÀS INOVAÇÕES
Katia Rocha lembra que o Sistema Único de Saúde foi pensado para acolher toda uma diversidade de cidadãos e que, hoje, as vulnerabilidades sociais e econômicas, são adversidades que precisam ser trabalhadas para que se alcance o atendimento igualitário. “É preciso que as nossas instituições, nossos profissionais estejam atentos a essas diversidades para que realmente, trabalhando essa desigualdade, a gente consiga encontrar o caminho da igualdade, da universalidade do nosso Sistema Único de Saúde. Eu creio que os nossos hospitais filantrópicos, sem dúvidas, são a execução fiel daquilo que o nosso constituinte idealizou quando pensou na criação e na concretização desse sistema universal de saúde”, finaliza.
*Tipos de diálise:
Hemodiálise: diálise realizada por meio da filtração do sangue. O sangue é retirado pouco a pouco do organismo através de uma agulha especial para punção de fístula arteriovenosa* ou cateter (tubo) localizado numa veia central do pescoço, bombeado por uma máquina e passa por um filtro onde vão ser retiradas as toxinas e a água que estão em excesso no organismo. Depois de “limpo”, o sangue volta para o corpo através da fístula ou do cateter. A hemodiálise é realizada em clínicas especializadas, no mínimo 3 vezes por semana e tem uma duração de aproximadamente 3-4 horas.
Diálise peritoneal: diálise realizada através de uma membrana (fina camada de tecido) chamada peritônio. O peritônio está localizado dentro da barriga e reveste todos os órgãos dentro dela. Ele deixa passar, através de seus pequenos furos, as toxinas e a água que estão em excesso no organismo. A diálise peritoneal é feita com a colocação de um líquido extremamente limpo dentro da barriga através de um cateter. O líquido deve permanecer dentro da barriga por um período determinado pelo médico e, quando ele for retirado, vai trazer junto com ele as toxinas e o excesso de água e sais minerais. Esta diálise é feita em casa, após o treinamento do paciente e de seus familiares.
Fístula arteriovenosa: ligação entre uma pequena artéria e uma pequena veia, com a intenção de tornar a veia mais grossa e resistente, para que as punções com as agulhas de hemodiálise possam ocorrer sem complicações. A cirurgia é feita por um cirurgião vascular e com anestesia local.
Fonte: MINISTÉRIO DA SAÚDE