Santa Casa de BH: falta de contraste coloca em risco a vida de cardiopatas

Estoque do hospital não dura até sexta-feira. “Nunca vi uma situação tão crítica”, afirmou a Superintendente de Suporte à Saúde do Grupo Santa Casa de Belo Horizonte

“Nunca vi uma situação tão crítica”. A falta de contraste iodado e do gadolínio nos hospitais da Santa Casa de Belo Horizonte impede o tratamento, principalmente, dos pacientes cardiopatas e, consequentemente, coloca em risco a vida deles. A ausência do insumo no mercado tem feito com que o estoque da unidade de saúde fique baixo e a previsão é de que ele sequer dure até o final desta semana.

O alerta sobre uma possível ausência dos contrastes aconteceu em abril deste ano, conforme noticiado pela reportagem de O TEMPO. A previsão acabou se concretizando e a situação é de preocupação, segundo a Superintendente de Suporte à Saúde do Grupo Santa Casa de Belo Horizonte (GSCBH), Priscila Bonisson.

“A ausência mais crítica é do contraste não iodado. O abastecimento deste insumo é mais grave pois ele sumiu do mercado. Não conseguimos comprar por nenhum valor e isso afeta na assistência”, afirma a autora da frase que abre esta reportagem.

Além dos contrastes também estão em falta alguns antibióticos específicos, quimioterápicos e soro fisiológico, conforme explicado por Priscila. A ausência de contraste compromete, principalmente, o tratamento de pacientes cardiopatas, pois eles acabam tendo que ficar mais tempo internados já que não estão aptos a irem para casa.

“Temos quantidade de pacientes internados com demanda reprimida pois não conseguem fazer procedimentos como por exemplo, angioplastia e cateterismo por falta dos insumos. A situação é complicada já que o paciente tem prolongado o período de internação. Os pacientes do leito de cardiologia são os mais afetados, pois precisam do contraste e não conseguimos”, pontua.

Para atender as demandas, Priscila conta o que é feito pelo GSCBH. “Algumas instituições fizeram trocas de contraste por outro medicamento, mas chegou o momento em que todas estão com escassez e agora não tem fornecimento regular. Temos pedido ajuda ao Ministério Público de Minas Gerais e à Secretaria Municipal de Saúde”.

Atualmente, o estoque é ainda mais baixo e sequer pode chegar até o final desta semana. “Guardamos o estoque para atender a urgência. Ontem (21) recebemos quatro pacientes de linha vermelha e não teve outra alternativa a não ser usar os contrastes. O meu estoque não dura até sexta. É muito crítico. Em alguns casos fazemos tomografia e ressonância sem contraste”, alerta.

Explicação para a falta dos contrastes

Os contrastes citados são produzidos na China e, segundo Priscila, a maior fabricante teve que interromper os trabalhos por um mês. “Em 18 de maio, a principal fabricante informou que teve que ficar 30 dias fechada por conta do lockdown diante dos casos de Covid-19. Isso afetou o abastecimento para todo o mundo”, conta.

Apesar das atividades terem sido retomadas, a produção não está conseguindo suprir tamanha demanda. “As atividades acontecem por 24 horas, mas como o produto é usado mundialmente e vem de navio e tem a questão de portos e quarentena do produto, acaba tendo ainda o desabastecimento.

Ainda não há previsão de quando a situação será normalizada. Priscila ressalta ainda que a falta de contraste não está relacionada à ausência de recursos financeiros.

Diante da falta do insumo, pacientes cardiopatas devem redobrar os cuidados médicos. “O paciente cardiológico em risco com comorbidades associadas hipertensão e diabetes devem prevenir os eventos tomando os medicamentos corretamente e obedecendo as dietas”, finaliza.

‘Nível crítico’

A reportagem de O TEMPO questionou a Prefeitura de Belo Horizonte para saber a situação dos estoques. Segundo o Executivo municipal, nos dois hospitais de gestão municipal (Hospital Metropolitano Odilon Behrens – HOB e Hospital Metropolitano Dr Célio de Castro – HMDCC) os estoques de contrate estão em nível crítico.

“É importante ressaltar que a escassez do produto é um problema nacional que tem afetado as unidades de saúde públicas e particulares. A Secretaria Municipal de Saúde reforça que mantém contato com os hospitais prestadores do SUS, que também sinalizam a mesma situação, com estoque crítico”, informou em nota.

O constrate gadolínio não integra a lista de medicamentos utilizados pelos dois hospitais.

O governo de Minas, por sua vez, esclareceu que não adquire contrate iodado e gadolíneo para atendimento à população. “Estes são itens de aquisição hospitalar”, diz trecho da nota.

Fonte: Jornal O Tempo